Somos oprimidos pelo patriarcado ou pela mãe natureza?

Escrito por John Barry, traduzido por Yago Luksevicius de Moraes.

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Para muitas pessoas — eu incluído — a ideia de patriarcado evoca imagens de grave opressão das mulheres em países subdesenvolvidos, privando-as de direitos humanos e dignidade. Ao mesmo tempo, muitas pessoas, inclusive eu, reconheceram que “destruir o patriarcado” é uma ideia desonesta e destrutiva no Ocidente moderno, porque o “governo do pai” — que é o que patriarcado significa — faz pouco sentido em países onde o papel dos homens na família se tornou tão precário. A situação no Ocidente moderno deve-se às varas de família e a uma cultura geral de misandria, que ignora os problemas vivenciados por homens e meninos em geral.

Os críticos da ideia de “destruir o patriarcado” tendem a se concentrar, de forma explícita ou implícita, na teoria do patriarcado, em vez do patriarcado em si. A teoria do patriarcado é um constructo feminista que, simultaneamente, exagera a opressão das mulheres (por exemplo, donas de casa tratadas como escravas) e exagera o privilégio masculino (por exemplo, o privilégio de trabalhar fora de casa). Essa distorção cognitiva dos papéis de gênero às vezes é chamada de viés gama. Nesta excelente crítica do Prof. Eric Anderson, uma das críticas é que a teoria do patriarcado não é, na verdade, uma teoria válida no sentido popperiano e é, na melhor das hipóteses, um conceito — e não muito convincente —, dado que se baseia na seleção tendenciosa de exemplos de opressão e privilégio. Por isso, foi interessante ler o artigo recente do Prof. Marc J. Defant, que critica a visão feminista do patriarcado principalmente com base no fato de que ela vê as diferenças sexuais e as “desigualdades de gênero” como resultado de fatores sociais, mas ignora a influência de fatores biológicos.

O escopo do artigo de Defant é bastante amplo, abrangendo a importância da psicologia evolucionista na compreensão do patriarcado, da construção social, das carreiras e da diferença salarial entre gêneros, dos estudos gordos (fat studies), da objetificação das mulheres, do estupro e do conceito de “experiências vividas”. Meu artigo se concentrará apenas na visão de Defant sobre o patriarcado, mas recomendo a leitura completa de seu trabalho. 

“os estudos feministas, tal como praticados atualmente, estariam mais adequadamente colocados em contextos ativistas ou políticos, onde a defesa de causas é esperada e a neutralidade acadêmica não é presumida.”

Em sua introdução, Defant afirma: “Uma crítica significativa à produção acadêmica feminista é sua falta de rigor científico, apesar de suas perspectivas diversas. Conceitos centrais como construcionismo social e patriarcado servem como pressupostos fundamentais em grande parte da produção feminista, frequentemente funcionando como premissas iniciais, e não como hipóteses a serem rigorosamente testadas”. Ele conclui que “s estudos feministas, tal como praticados atualmente, estariam mais adequadamente colocados em contextos ativistas ou políticos, onde a defesa de causas é esperada e a neutralidade acadêmica não é presumida”

A psicologia evolucionista, segundo ele, recorre a áreas como biologia, economia e neurologia para explicar diferenças psicológicas e comportamentais entre os sexos. Por exemplo, ele observa que os hormônios sexuais testosterona e estrogênio, em parte devido à exposição diferencial no período pré-natal, estão “estreitamente ligados a comportamentos masculinos e femininos”, incluindo escolhas de carreira. Assim, a testosterona “está fortemente ligada à propensão ao risco, assertividade e competitividade, traços que impulsionam a participação masculina em finanças, tecnologia e empreendedorismo, [enquanto] o estrogênio e a ocitocina contribuem para maior vínculo social, cooperação e comportamentos de cuidado, que se alinham a preferências profissionais em áreas como saúde, educação e serviço social”. Por causa disso, explicações baseadas apenas no condicionamento cultural são, na melhor das hipóteses, incompletas.

A visão geral de Defant sobre psicologia evolucionista e seleção sexual explica a base de suas ideias sobre o patriarcado. “Em seu cerne está a disparidade no investimento reprodutivo: os machos produzem abundância de espermatozoides e podem gerar vários descendentes em um curto período, enquanto as fêmeas produzem um número limitado de óvulos, passam pela gravidez e normalmente assumem a principal responsabilidade pela criação dos filhos”. É por isso que, em geral, as fêmeas buscam parceiros de longo prazo, enquanto os machos buscam múltiplas oportunidades sexuais mais breves. Embora as estratégias de acasalamento sejam influenciadas por fatores sociais, como condições culturais e econômicas, a psicologia evolucionista propõe que a biologia reprodutiva continue sendo um fator significativo nas diferenças psicológicas e comportamentais entre os sexos. Essa posição faz sentido quando se considera que a evolução teve milhões de anos para moldar o comportamento proto-humano e humano, enquanto a cultura moderna teve apenas alguns milhares de anos. Defant contrasta a visão da psicologia evolucionista com a teoria feminista, que sugere que as diferenças sexuais na psicologia e no comportamento “emergem de papéis sociais e estruturas ideológicas”.  

É interessante observar mais de perto as raízes profundas dessa influência evolutiva. Há cerca de 5,5 milhões de anos, nossos ancestrais hominíneos passaram (por razões ainda não totalmente compreendidas) por um rápido aumento de três vezes no tamanho do cérebro. Em contraste com o cérebro, o restante do corpo evolui mais lentamente, incluindo crucialmente, o canal de parto. Por essa razão, os humanos herdaram a necessidade de que os bebês nasçam relativamente prematuros em comparação com outros animais, e sejam indefesos por mais tempo, devido à necessidade de completar o desenvolvimento cerebral fora do útero. Essa dependência prolongada dos bebês humanos é sugerida como a causa da necessidade de envolvimento materno e paterno significativo para criar filhos com sucesso, em um grau não observado em animais não humanos. 

“estratégias reprodutivas divergentes, como a tendência masculina ao acasalamento de curto prazo e a preferência feminina por investimento de longo prazo […] podem contribuir para estruturas patriarcais sem exigir coordenação consciente.”

Charles Darwin (1859) observou que algumas características masculinas, como a cauda do pavão, eram, no máximo, um obstáculo à sobrevivência, por serem altamente visíveis a predadores. Ele concluiu que essas adaptações só faziam sentido em termos de uma visão mais ampla da sobrevivência, para a procriação, e propôs o conceito de seleção sexual, isto é, atrair um parceiro, em oposição à seleção natural, que diz respeito a manter-se vivo. 

Darwin descreveu dois tipos principais de seleção sexual: competição intrassexual (rivalidade por um parceiro) e seleção intersexual (ser seletivo quanto a com quem se acasala). Nos humanos, a competição intrassexual é evidenciada por diferenças físicas que indicam prontidão para competição física, como a diferença sexual na força da parte superior do corpo. Mas a competição masculina nos humanos vai além da força muscular e se estende a características como cooperação com outros para alcançar objetivos. Um exemplo de seleção intersexual é a escolha feminina por um homem disposto e capaz de investir em uma parentalidade estável.

A visão de Defant sobre o patriarcado

Após estabelecer o contexto a partir de uma perspectiva evolutiva, Defant se concentra em uma série de fragilidades específicas da ideologia feminista, começando pela visão feminista do patriarcado. “Nos estudos feministas, o patriarcado refere-se a um sistema social no qual os homens detêm o poder e a autoridade primários, dominando instituições-chave como a família, o governo, a religião e a economia, enquanto as mulheres são sistematicamente subordinadas ou marginalizadas — isto é, discriminadas.” Ele continua: “O conceito de patriarcado está intimamente ligado à afirmação de que o gênero é socialmente construído. A construção social, nesse sentido, refere-se à ideia de que muitos aspectos da realidade — como comportamentos e papéis de gênero, identidades ou normas sociais — não são inerentes ou biologicamente fixos, mas são criados e sustentados por interações humanas, práticas culturais e processos históricos” bem como pela “criação, mídia e instituições”.  Assim, a ideia de que é natural que homens e mulheres tenham papéis sexuais diferentes é geralmente rejeitada nos estudos feministas, com raras exceções, como Barbara Smuts (1995), embora Smuts se concentre apenas em como isso pode desvantajar as mulheres, e não em como pode beneficiá-las ou desvantajar os homens.

 “um patriarcado, como resultado evolutivo, é caracterizado por um equilíbrio delicado de poder e resistência, no qual ambos os sexos navegam por trocas entre cooperação e conflito”.

Defant lista vários exemplos dos estudos feministas, incluindo autores renomados como Andrea Dworkin e Judith Butler, e então contrasta isso com a visão do patriarcado a partir da psicologia evolucionista, que sugere que “o patriarcado pode emergir de conflitos sexuais recorrentes enraizados em estratégias reprodutivas divergentes, como a tendência masculina ao acasalamento de curto prazo e a preferência feminina por investimento de longo prazo.” Ele afirma que essas estratégias divergentes “dão origem a comportamentos como ciúme, vigilância do parceiro e controle diferencial da sexualidade, que podem contribuir para estruturas patriarcais sem exigir coordenação consciente.” Essas dinâmicas acarretam custos para homens e mulheres, como os custos (incluindo morte) da competição entre homens e a autonomia restrita das mulheres. Defant observa que: “Ao contrário das afirmações de estudiosos feministas de que a agressão masculina visa principalmente as mulheres […], esses padrões sugerem que a agressão masculina envolve, principalmente, competição intrassexual entre homens”.

Defant descreve como relatos feministas tendem a minimizar a agência das mulheres, em particular a escolha feminina de parceiros impulsionando a evolução de traços masculinos, como a ubiquidade histórica de jovens homens compelidos “a demonstrar capacidades físicas excepcionais em atividades como caça, guerra tribal, defesa territorial e proteção de recursos pessoais” e, simultaneamente, “dissuadir competidores masculinos”. A falha em demonstrar publicamente a capacidade de competir e vencer era fatal para a reputação de um homem, “influenciando a sobrevivência de longo prazo e os resultados reprodutivos”. Assim, “a escolha feminina de parceiros, ao mesmo tempo em que impulsiona a evolução de traços masculinos associados a um patriarcado evolutivo (em oposição a um patriarcado socialmente construído), também dá origem a conflitos nos quais comportamentos masculinos, como a coerção, impõem custos às mulheres. Biólogos evolucionistas demonstraram que as fêmeas evoluem estratégias para resistir à coerção masculina e manter o controle sobre a escolha de parceiros (Arnqvist & Rowe, 2005). Assim, um patriarcado, como resultado evolutivo, é caracterizado por um equilíbrio delicado de poder e resistência, no qual ambos os sexos negociam compensações entre cooperação e conflito”.

“a escolha feminina de parceiros provavelmente lançou as bases para a dominância masculina, já que as mulheres selecionaram preferencialmente parceiros com características como força física e provisão de recursos”.

Defant descreve como as instituições culturais não apenas refletem essas dinâmicas patriarcais evolutivas, mas, em algumas circunstâncias, as amplificam e, de fato, “perpetuaram algumas desigualdades criticadas pelas feministas.” Quando se trata do que Defant vê como os problemas da explicação feminista do patriarcado, sua análise é sutil e desafiadora. Ele afirma que as feministas ignoram o aspecto evolutivo do patriarcado — a parte que é benéfica — e se concentram nos aspectos culturais do patriarcado, que são os mais propensos a sair do controle: “Os estudos feministas refletem um sistema ideológico construído sobre a premissa de que o patriarcado é uma estrutura deliberada, imposta pelos homens, projetada para oprimir as mulheres, e que os papéis de gênero são, portanto, inteiramente socialmente construídos. […] a referência ideológica ao patriarcado demoniza os homens e incentiva a discriminação com base no gênero.” Em contraste, segundo a psicologia evolucionista, “em sociedades de caçadores-coletores, a escolha feminina de parceiros provavelmente lançou as bases para a dominância masculina, já que as mulheres selecionaram preferencialmente parceiros com características como força física e provisão de recursos, fomentando estruturas sociais que evoluíram para sistemas patriarcais evolutivos.” Portanto, “embora a escolha feminina tenha iniciado essas dinâmicas na pré-história, sua codificação em sistemas opressivos foi um legado cultural, evidente nas severas estruturas patriarcais da Europa medieval e do início da modernidade.”

Essa linha de raciocínio sugere que, embora o patriarcado imponha custos a homens e mulheres, não devemos nos apressar em “destruí-lo”, como sugerem as feministas, porque as raízes biológicas do patriarcado indicam que ele é uma rota adaptativa para o sucesso reprodutivo. No entanto, como qualquer sistema funcional, ele pode ir longe demais. Essas desigualdades são evidentes em culturas e religiões que impõem rigidamente sua ideologia às pessoas, causando sofrimento indevido. Contudo, o fato de existirem exemplos de patriarcados severos não justifica o tratamento duro dado aos pais ou aos homens em geral nos países ocidentais modernos, nem justifica o viés gama de exagerar as dificuldades das mulheres e os privilégios dos homens. 

Na visão de Defant, o patriarcado evolutivo está vivo na biologia humana. Ele resistiu ao teste do tempo — ajudou a espécie humana a sobreviver — e influenciou as tradições que mantêm homens e mulheres unidos para criar sua prole vulnerável. Como observa Martin Seager, as diferenças biológicas entre os sexos não são estereótipos a serem combatidos, mas arquétipos evoluídos a serem valorizados porque masculinidade e feminilidade são complementares, não opostas. Embora algumas feministas comparem ser dona de casa à escravidão, apenas 20% das mulheres são centradas no trabalho, e o restante é centrado no lar (20%) ou deseja uma combinação de trabalho e lar (60%). O trabalho da grande maioria dos homens ao longo da história não foi marcado por poder e glamour, como qualquer mineiro ou soldado pode atestar, mas sim por tarefas sujas e perigosas realizadas sem muitas reclamações. Isso não significa que pessoas que desejem outros estilos de vida não devam ter essa liberdade, mas também não significa que todos devam viver um estilo de vida (por exemplo, permanecer solteiro ou ser ‘sem filhos’) que não se adequa à maioria.

Mesmo que o patriarcado não seja simplesmente uma invenção dos homens ou um construto social, ele é atacado nas teorias feministas como se ambas as coisas fossem verdadeiras. Nesse clima de antipatriarcado, talvez não seja coincidência que, na cultura ocidental moderna, tantas pessoas estejam solteiras e solitárias, e que as taxas de natalidade estejam despencando abaixo dos níveis de reposição. Assim, embora o “patriarcado evolutivo” imponha custos a todos, ele é um projeto para a vida talvez semelhante ao que Churchill disse sobre a democracia: é a pior opção, exceto todas as outras.

Embora o artigo de Defant seja interessante, não tenho certeza de que o termo “patriarcado evolutivo” se encaixe perfeitamente, porque o termo “patriarcado” adquiriu, gostemos ou não, a conotação de uma cultura que favorece injustamente os homens. Penso que o termo “diferenças sexuais comportamentais evoluídas” é mais descritivo, menos propenso a interpretações equivocadas e exige menos explicações prévias sobre o que não é antes de podermos discutir o que é. Ainda assim, a abordagem de Defant sobre o patriarcado é, sem dúvida, instigante para qualquer pessoa interessada em diferenças sexuais e igualdade de gênero.

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Isenção de responsabilidade: Este artigo tem apenas propósitos informativos e não substitui uma terapia, consultoria jurídica ou a opinião de outro profissional. Nunca desconsidere tais conselhos por causa deste artigo nem por qualquer outra coisa que tenha lido no Centre for Male Psychology. Os pontos de vista aqui expressos não necessariamente refletem ou são endossados pelo Centre for Male Psychology e não nos responsabilizamos por eles. Leia o texto completo aqui.


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