Experimento mental: Imagine 12 Horas Sem #BonsHomens

 

Imagem: ‘Toque de recolher masculino no Reino Unido’. Concepção original de John Barry, criado com geração de imagem por IA (Grok).

 

Traduzido por Yago Luksevicius de Moraes. English version can be found here.

Na minha experiência, defensores dos direitos de vítimas masculinas de abuso doméstico às vezes se veem confrontados com “desvios de contra-acusação dos dois lados” ou, pior ainda, com a sugestão constrangedora de que promover uma perspectiva igualitária sobre os direitos humanos das vítimas pode potencialmente colocar a vida das mulheres em risco.

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Diversos estudos, incluindo pesquisas recentes da Escola de Psicologia da Queen’s University Belfast, indicam que esse tipo de reação pode contribuir para padrões sociais nos quais as experiências e necessidades de vítimas masculinas são minimizadas ou negligenciadas devido a estereótipos de gênero, estigma, preconceito e viés gama.

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Tais táticas de silenciamento sempre me pareceram profundamente preocupantes, dadas as óbvias semelhanças com comportamentos criminosos cada vez mais identificados em casos de controle coercitivo, incluindo esforços para regular o discurso ou usar humilhação e intimidação para suprimir a voz de alguém.

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Imagine minha surpresa ao descobrir que um respeitado professor de Direito Penal de Oxford, o professor Jonathan Herring, defendeu uma medida extraordinariamente extrema de controle coercitivo, em grande parte com base em um tipo de desvio com contra-acusação.

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A construção “Nem todos os homens” convida formuladores de políticas públicas a considerar o sério problema da violência masculina contra mulheres a partir da perspectiva de uma mulher que encontra um homem na rua à noite. Esses encontros frequentemente causam ansiedade nas mulheres porque é impossível saber se estão cruzando com um homem bom ou não até que seja potencialmente tarde demais.

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“A solução proposta pelo professor Herring para o problema da segurança feminina em espaços públicos é implementar um toque de recolher noturno em todo o país, restringindo e monitorando os movimentos de todos os homens em todos os momentos”

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A solução proposta pelo professor Herring para o problema da segurança feminina em espaços públicos é implementar um toque de recolher noturno em todo o país, restringindo e monitorando os movimentos de todos os homens em todos os momentos. Ele argumenta que, sob a atual legislação de direitos humanos, isso seria um meio proporcional de alcançar o objetivo legítimo de combater a discriminação sexual atualmente vivenciada pelas mulheres, e apresenta a perspectiva “Nem todos os homens” como evidência de que tal medida não poderia ser restrita apenas a pessoas que já demonstraram ser homens perigosos.

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Seu argumento revisado por pares e aparentemente totalmente sincero em favor do Direito a um Toque de Recolher Masculino apareceu na edição mais recente do International Journal of Gender, Sexuality and Law da Universidade de Northumbria, uma edição inteiramente dedicada a “reflexões sobre o mundo imaginado no romance distópico policial After Dark (2022), de Jayne Cowie”, que também foi adaptado para uma série de televisão.

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O professor Herring conclui seu argumento afirmando que: “Muitos se oporão a um toque de recolher masculino, mas aqueles que o fizerem devem apresentar uma forma alternativa de proteger os direitos das mulheres.”

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Felizmente, é inteiramente possível responder a esse desafio evitando desvios com contra-acusação, restringindo a análise apenas às possíveis implicações que um toque de recolher exclusivamente masculino poderia ter para mulheres e meninas.

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O romance de Jayne Cowie limita qualquer exame dos impactos sociais a possíveis aspectos positivos, como reversões das diferenças salariais de gênero, representatividade no Parlamento, segregações ocupacionais e divisões domésticas do trabalho.

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Reveladoramente, esses aspectos são celebrados como reversões dramáticas, em vez de igualações equitativas; ainda assim, é possível que a extrema erosão de liberdades civis necessária para alcançar tais ganhos de curto prazo também produza resultados que prejudiquem o bem-estar das mulheres.

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Por exemplo, a introdução de um toque de recolher poderia resultar em uma fratura dramática na coesão social, já que o propósito central da legislação de direitos humanos deixaria de ser a proteção neutra para se tornar a imposição de uma sociedade de controle estritamente segregada com base sectária.

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“A economia noturna do Reino Unido (avaliada em £66 bilhões anuais) entraria em colapso quase literalmente da noite para o dia.”

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Um toque de recolher exclusivamente masculino também causaria inevitavelmente danos econômicos severos, em múltiplas camadas e ao longo de gerações, incluindo uma redução imediata estimada de 10% no PIB, dado que os homens representam entre 70% e 80% dos trabalhadores de turnos noturnos em muitos setores afetados.

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A economia noturna do Reino Unido (avaliada em £66 bilhões anuais, aproximadamente R$ 430 bilhões) entraria em colapso quase literalmente da noite para o dia. Setores como hospitalidade, entretenimento e varejo sofreriam demissões em massa, fechamento de empresas e forte inflação salarial.

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Mais de 90% dos motoristas de ônibus, trens e táxis são homens, portanto o transporte público seria severamente restrito durante o toque de recolher; e como é nesse período que ocorre grande parte da manutenção essencial, haveria uma erosão significativa dos padrões de segurança da infraestrutura de transporte.

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O setor de trabalhos “sujos e perigosos”, incluindo saneamento e logística, sofreria um colapso total de eficiência. Serviços de entrega, transporte de longa distância e operações de armazéns 24 horas seriam devastados, e a cadeia de suprimentos “just-in-time” entraria em colapso em 48 horas.

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“O tratamento de água também é uma operação 24/7, o que significa que a segurança e o abastecimento de água potável seriam gravemente comprometidos. O mesmo vale para o tratamento de esgoto.”

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Haveria um colapso operacional quase imediato da infraestrutura crítica de serviços públicos do Reino Unido, e uma redução de 70% a 99% na força de trabalho disponível para reparos emergenciais e engenharia de linha de frente durante a noite poderia levar ao desligamento total da rede elétrica nacional.

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O tratamento de água também é uma operação 24/7, o que significa que a segurança e o abastecimento de água potável seriam gravemente comprometidos. O mesmo vale para o tratamento de esgoto. Os setores de agropecuária também seriam profundamente afetados, e um apagão digital seria quase inevitável, já que mais de 90% dos engenheiros de telecomunicações são homens, e a manutenção de infraestruturas críticas de internet e telefonia móvel ocorre principalmente durante o período noturno.

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As mulheres teriam que suprir integralmente a demanda por trabalho em horários não convencionais. Como consequência, a diferença salarial entre os sexos poderia se inverter superficialmente, mas a renda média das famílias cairia significativamente, aumentando os níveis de pobreza, especialmente entre famílias de baixa renda incapazes de se adaptar. Isso seria agravado por uma severa crise do custo de vida, causada por uma rápida elevação nos preços de bens essenciais.

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Uma em cada quatro mulheres em idade de trabalho no Reino Unido é economicamente inativa, e mesmo que todas pudessem ingressar repentinamente no mercado de trabalho, isso não seria suficiente para suprir as grandes lacunas causadas pela ausência de homens durante a noite.

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Embora o setor de saúde seja predominantemente feminino, trabalhadores homens estão particularmente concentrados em áreas vitais para operações noturnas, incluindo resposta a emergências e funções clínicas de maior senioridade.

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Profissões dominadas por mulheres, como educação, saúde, assistência e serviços sociais, poderiam ter dificuldade em reter sua força de trabalho, já que haveria incentivo para migração para ocupações anteriormente dominadas por homens. Mesmo com uma entrada súbita de trabalhadores homens para substituí-las, exigências de experiência, treinamento e qualificação fariam com que essa reversão de segregação ocupacional levasse anos.

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Os custos de implementação de monitoramento de toque de recolher para mais de 30 milhões de homens e meninos (acima de dez anos, no romance de Cowie) seriam astronômicos, com custos anuais possivelmente superiores a £10–20 bilhões (aproximadamente, R$ 65-130 bilhões).

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Amizades e relacionamentos entre sexos se tornariam logisticamente caóticos, exacerbando epidemias de solidão, já particularmente agudas entre homens jovens. Os níveis de abuso de substâncias também provavelmente aumentariam significativamente.

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As taxas de natalidade cairiam ainda mais, acelerando o declínio demográfico e pressionando ainda mais sistemas de previdência e assistência. Milhões de lares sem pai surgiriam devido a violações do toque de recolher e separações, levando a desafios de desenvolvimento de longo prazo para muitas mulheres, às vezes referidos como “síndrome da filha sem pai”.

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A “desumanização” da população masculina inevitavelmente criaria uma emergência de saúde mental. A internalização de ser visto como um “suspeito permanente” desde os dez anos, combinada com a falta de autonomia e o isolamento social durante o toque de recolher, levaria a níveis elevados de depressão e suicídio.

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A longo prazo, inovação e empreendedorismo sofreriam devido a uma grande fuga de cérebros. Muitas empresas nacionais (do Reino Unido) e internacionais transfeririam suas operações para o exterior. A desigualdade por classe aumentaria, perpetuando ciclos de pobreza e criminalidade.

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A imigração masculina para o Reino Unido cairia drasticamente, enquanto a emigração masculina aumentaria a níveis capazes de gerar uma crise de refugiados na Irlanda e em países vizinhos.

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“A maior parte da violência contra mulheres é cometida por homens conhecidos, de modo que a ironia final de um toque de recolher exclusivamente masculino é que ele criaria um cenário em que as casas se tornariam prisões para vítimas de abuso doméstico”.

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As relações internacionais também poderiam ser seriamente afetadas, impactando comércio, turismo, poder diplomático, alianças políticas, estratégicas e militares. Nações estrangeiras poderiam até considerar invadir o Reino Unido e saquear recursos sob o pretexto de mudança de regime diante de violações tão graves de direitos humanos.

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Em caso de uma guerra de alta intensidade, como a invasão russa da Ucrânia, analistas militares sugerem que o Reino Unido poderia enfrentar até 1.500 baixas por dia. Essas baixas provavelmente seriam majoritariamente femininas, caso combatentes masculinos se retirassem ou até apoiassem o invasor.

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De fato, uma intervenção militar estrangeira poderia se tornar inevitável e amplamente apoiada por instituições como a ONU, a OTAN e a UE, dadas as implicações catastróficas para a indústria nuclear do Reino Unido e seu poder de dissuasão nuclear, ambos com cerca de 80% de trabalhadores homens em funções técnicas e operacionais, altamente reguladas e dependentes de trabalho contínuo em turnos. Erros humanos em salas de controle ou manutenção poderiam gerar catástrofes em escala comparável a Chernobyl.

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E, como o conflito contemporâneo no Irã tem demonstrado, mudanças de regime são difíceis, já que aqueles no poder raramente saem pacificamente. Assim, não é inconcebível que um toque de recolher masculino em todo o Reino Unido pudesse levar à primeira invasão terrestre de um país capaz de se defender com armas nucleares.

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Se o poder absoluto corrompe absolutamente, também se poderia dizer que a idiotice absoluta causa perdas para todos sem gerar ganhos para si mesma.

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Suspeito (e espero) que o artigo do professor Herring tenha sido mais uma tentativa de gerar controvérsia do que uma proposta séria de política pública. Ainda assim, vale lembrar que, em 2021, o Primeiro-Ministro do País de Gales precisou esclarecer publicamente que não estava considerando a introdução de um toque de recolher para homens após dizer à BBC que não descartaria tal medida drástica.

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Aliás, a maior parte da violência contra mulheres é cometida por homens conhecidos, de modo que a ironia final de um toque de recolher exclusivamente masculino é que ele criaria um cenário em que as casas se tornariam prisões para vítimas de abuso doméstico, especialmente aquelas legalmente obrigadas a não sair até as 7h.

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Por essas e muitas outras razões, proponho que uma solução mais eficaz para o dilema do professor Herring seja simplesmente não implementar um toque de recolher masculino.

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Brian Drury

Brian Drury has a background in Human Rights Law and Psychology. His research project The Glass BlindSpot documents evidence of gamma bias.

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